Mostrando postagens com marcador maconha. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador maconha. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Canabidiol: mitos e verdades

*Por Neide Montesano

Em todas as discussões que ocorrem junto à opinião pública sempre nos defrontamos com mitos e verdades, alguns desses temas merecem nossa atenção pela relevância. O Canabidiol (CBD), esse composto químico encontrado na planta Cannabis, que nos últimos anos ganhou notoriedade por suas funções terapêuticas e cognitivas, é uma questão que merece bastante consideração por todos e urgência em sua regulamentação no Congresso Nacional.

Pesquisa realizada por Orrin Devinsky aponta que o grupo de pessoas tratadas com CBD a frequência de convulsões diminuiu em 39% | Foto: reprodução

As pessoas costumam generalizar a planta Cannabis, mas é importante esclarecer que ela tem três espécies principais: a Cannabis sativa, Cannabis indica e Cannabis ruderalis. Todas possuem características e compostos semelhantes, porém quando o assunto é Canabidiol (CBD), a atenção se volta à Cannabis ruderalis, conhecida como cânhamo (hemp). Esta variedade da planta possui uma porcentagem inferior a 0,3% de THC (Tetrahidrocanabinol), que é o responsável pelos efeitos psicoativos, e também cerca de 20% de CBD (Canabidiol), que tem mais efeitos farmacológicos e terapêuticos.

No Brasil, o tema CBD tem gerado muitas polêmicas e dúvidas pelo fato de a substância estar associada à planta Cannabis, já que ela continua sendo fonte lucrativa no tráfico de entorpecentes, ao ser utilizada para fins recreativos por grande parte da população. De fato, temos em nosso País um grande preconceito social com a planta, além de desinformação na sociedade e até ignorância generalizada.

Para melhorar a compreensão desse produto, separamos alguns mitos e verdades sobre o Canabidiol:

Mitos

1. CBD é o mesmo que THC?
Quimicamente falando, o CBD não é o mesmo que THC, embora tenham a mesma composição química. O que diferencia os dois compostos é o arranjo de um único átomo.  O THC atua diretamente na ativação de células do receptor cannabinoide CB1 (agonista). É o responsável pelo efeito psicoativo no cérebro e sistema nervoso central. Já o CBD atua no receptor cannabinoide CB2 (antagonista), suprimindo até as propriedades do THC nos receptores CB1. Isso que significa que o CBD não deixa o consumidor sem reação, não importa a quantidade consumida. As suas propriedades são benéficas com diversas aplicações terapêuticas.

2. Todo CBD é igual?
O CBD não é igual sempre. Os produtos que contêm CBD podem ser ‘Full spectrum’, ‘Broad spectrum’ ou isolados. O ‘Full spectrum’, ou espectro completo, é um extrato que contém todos os compostos encontrados naturalmente na planta, incluindo terpenos, óleos essenciais e outros canabinóides (incluindo THC e é responsável pelo efeito ‘entourage’). O CBD isolado é a forma mais pura dessa substância, que é produzida pela remoção de todos os outros compostos encontrados na planta, incluindo terpenos, flavonoides, partes de plantas e outros canabinóides.

3. CBD é viciante?
O CBD age mais como um suplemento do que como um medicamento. Para dar um exemplo: se você confia na melatonina para ajudá-lo a adormecer à noite, o mesmo se aplica ao CBD, que não é viciante ou causa distúrbio por uso.

4. CBD trata todas as pessoas?
Se você é novo no mundo do CBD, tenha cuidado. É importante estar atento às situações. Por exemplo, um site pode afirmar que o CBD é a melhor cura para a insônia, enquanto outro diz que é um estimulante natural que pode mantê-lo acordado à noite. O que você provavelmente não saiba é que esses efeitos dependem muito de cada indivíduo. As pessoas recorrem ao CBD por uma infinidade de razões.

5. CBD cura o câncer?
Isso não procede. O canabidiol, como foi explicado, age mais como um suplemento e por isso é utilizado em alguns tratamentos de câncer, porém sua função é aliviar alguns sintomas dos pacientes com essa doença. Pode-se dizer que o CBD contribui para o tratamento em algumas etapas.

6. CBD é maconha medicinal?
Isso não é verdade, porque a maconha é a nomenclatura comercial da apresentação recreativa da Cannabis. Tenho explicado em minhas palestras que seria como chamar a rapadura, de álcool combustível, afinal todos derivam da cana-de-açúcar. Trata-se de um grande equívoco, que inclusive impede alguns pacientes de utilizarem esse recurso ou mesmo resistirem intensamente ao uso, pois não querem fazer uso de ‘maconha’.

7. Faltam pesquisas ou evidências que comprovem a eficácia do CBD?
Não faltam provas para sua eficácia. Essa substância existe na milenar Medicina Chinesa, o que nos permite concluir que não faltam mais ao mundo comprovações de sua eficácia e segurança. Qualquer outro discurso é meramente desconhecimento científico, ou vontade de dificultar discussões ou ainda ‘vender’ soluções de interesse particular.

Verdades

1. CBD funciona naturalmente com o corpo?
O canabidiol, juntamente com vários outros produtos químicos da cannabis, funciona naturalmente nos mamíferos com os receptores locais de canabinóides. Eles compõem o sistema endocanabinoide e são encontrados principalmente no cérebro e no sistema nervoso central.

2. É impossível ter overdose de CBD? 
O CBD não é uma substância tóxica, portanto, não é possível que haja overdose utilizando canabidiol.

3. Tem potencial anti-inflamatório?
Quando o CBD se liga aos receptores, ele pode bloquear a transmissão de mensagens químicas que podem causar inflamação, dor e convulsões em pacientes vulneráveis.

4. O CBD é usado no tratamento de epilepsia?
Segundo Orrin Devinsky, principal pesquisador de Neurologia da Universidade de Nova York, depois de testes usando o Epidiolex (forma líquida do CBD já aprovado pelo FDA) concluiu que, no grupo tratado com CBD, a frequência de convulsões diminuiu em 39%, e de uma média de 12 convulsões por mês para aproximadamente seis.

As mais recentes informações proporcionam um novo olhar para a forma de medicar, de tratar doenças, de quebrar paradigmas e mais ainda, traz a esperança de, se não curar, pelo menos minimizar dores, reduzir ataques, melhorar a memória, reduzir síndromes e principalmente aprimorar o convívio dos pacientes com suas famílias e a sociedade. Esse não é o futuro, é o presente, que na verdade é um presente a todos que precisarem do canabidiol.

*Neide Montesano é engenheira química, CEO do Grupo Montesano, palestrante e expert em sustentabilidade regulatória e boas práticas de desenvolvimento de negócios.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Maconha x canabidiol no tratamento de epilepsias

*Por Luiz Cetl

Sou neurocirurgião, com foco de atuação em procedimentos operatórios em casos de epilepsia refratária, ou seja, aquelas resistentes aos medicamentos. Embora não prescreva rotineiramente medicações para os pacientes (prefiro deixar para neurologistas, que têm base de conhecimentos mais profundos para fazer esse controle), sou frequentemente questionado por pacientes para que dê a minha opinião sobre o uso da maconha no tratamento da epilepsia.

"Na composição da maconha existem mais de 85 substâncias ativas, onde o tetrahidrocanabidiol (THC) e o canabidiol (CBD) são as mais estudadas atualmente, especialmente o CBD no caso da epilepsia", explica o neurocirurgião Luiz Cetl 
Numa abordagem bem direta com base na droga ativa, minha resposta costuma frustrar quem anseia por uma liberação médica, pois não sou a favor.

Em primeiro lugar, nunca é demais salientar que a maconha é uma droga ilícita no Brasil e na maior parte dos países do mundo, responsável por muitos efeitos deletérios nas pessoas, ainda que apresentem substâncias ativas dentro que parecem ajudar em algumas crises de epilepsia. Assim, é importante pontuar que não se usa maconha para tratar epilepsia e sim uma substância que pode ser isolada da planta para isso e ainda assim para casos bem específicos.

Ainda que seja compreensível a ânsia por soluções de quem sofre ou tem parentes com crises seguidas de epilepsia, é necessário contextualizar que na composição da maconha existem mais de 85 substâncias ativas, onde o tetrahidrocanabidiol (THC) e o canabidiol (CBD) são as mais estudadas atualmente, especialmente o CBD no caso da epilepsia.

O que chamamos de canabinóides são substâncias que associam ambos em diferentes proporções. Outra coisa importante a observar é que medicações derivadas de canabis são muito diferentes dos óleos de CBD. Enquanto os primeiros passam por processos industrializados capazes de garantir as concentrações de THC e CBD, os segundos são frutos de métodos mais artesanais, sem uniformidade na concentração das substâncias ativas, o que muitas vezes levam a subdoses.

Desta forma, por não haver controle, trabalhos mostram que em óleos de CBD produzidos pela própria "comunidade" as doses administradas por pais/cuidadores podem variar de 0,5 a 28,6 mg/Kg/dia.

Embora atualmente pareça existir um grande interesse no assunto, julgo importante a avaliação criteriosa de tudo o que o se tem propagado nas mídias, que ao público leigo mais tem confundido do que esclarecido.

Em um levantamento que realizei sobre o assunto, com base em cruzamento nos termos "Mesh" (um tipo de ferramenta) no site do "PubMed" -provavelmente a maior fonte de pesquisa mundial de assuntos na área da saúde-, com aspectos de terapia, dosagem, metabolismo, efeitos adversos dos tratamentos, com as mesmas bases em epilepsia, pude captar 66 trabalhos científicos.

Deste montante, pondero sobre uma revisão bem interessante sobre o assunto, apresentando um bom resumo da situação atual no tratamento da epilepsia, intitulada: "Cannabis and Epilepsy", de R. H. Thomas e M. O. Cunninghan, publicada em dezembro de 2018 na revista "Practical Neurology" na edição de número 18.

Nele temos a informação de que até agora, apenas uma droga, chamada Epidolex (99% CBD e 0,1% THC), foi liberada em junho de 2018 pelo FDA (agência americana de controle de medicações e alimentos) para uso em pacientes com Lennox-Gastaut e Síndrome de Dravet, a partir de 2 anos de idade. Aqui no Brasil a Anvisa autoriza que algumas pessoas possam usar óleos de CDB, com dosagem prescrita por um médico.

Alguns achados em uma revisão sistemática mostraram que o CBD tem efeito melhor que placebo, com redução de cerca de 50% das crises quando comparados os dois grupos (importante ressaltar que não é uma comparação com os medicamentos habitualmente utilizados). E alguns trabalhos mostram uma taxa de mortalidade em torno de 1,5% em pacientes com uso de CDB. Mostram ainda um risco de pneumonia 9,1 vezes maior para pacientes que recebem o CBD.

Ainda é possível observar em agrupamento 12 estudos observacionais, um aumento de 56% na qualidade de vida dos pacientes que usaram CBD, porém com 51% de efeitos adversos e 2,2% de efeitos adversos graves. Ainda temos o fato de em cerca de 1/3 dos casos haver a necessidade de aumento da dose com o tempo para a tentativa de manutenção dos efeitos obtidos anteriormente.

Desta maneira, parece que o CBD realmente tem o seu efeito benéfico em alguns tipos de epilepsia. Porém, é muito importante notar que assim como qualquer remédio, tem efeitos adversos, sendo que na epilepsia não é a medicação de uso inicial para tratamento.

Por último, e não menos importante, ainda não se sabe exatamente como o CBD age no cérebro dos pacientes para auxiliar no controle das crises. Possivelmente com mais estudos chegaremos a mais conclusões, favoráveis ou não ao uso dessa e de outras substâncias para o tratamento da epilepsia. Até lá, é preciso cautela.

*Luiz Cetl é neurocirurgião e especialista pela Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN). Membro do grupo de tumores do Departamento de Neurocirurgia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e integrante da Associação dos Neurocirurgiões do Estado de São Paulo (Sonesp). Atua ainda como preceptor de cirurgia de tumores cerebrais no Departamento de Neurocirurgia da Unifesp.

Coop promove ações gratuitas de saúde no ABC e interior

Redação Em janeiro, a Coop - Cooperativa de Consumo realizará a primeira edição de 2020 da Blitz da Saúde, programa social voltado aos mo...