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sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Raiva: como lidar com o sentimento de forma saudável

*Por Tatiana Pimenta  

Raiva é um sentimento que nos acompanha por toda a vida. É comum e saudável não abafá-la, embora existam meios de fazê-lo para não afetar as pessoas ao nosso redor ou prejudicar a nós mesmos. Se bem administrada, a raiva pode até mesmo trazer benefícios para nossas vidas. Como, por exemplo, utilizar uma situação que lhe causou grande indignação como motivação para mudá-la ou mudar a sua vida. É uma forma de transformar um sentimento negativo em energia positiva . Porém, para encontrarmos esse equilíbrio em nossas vidas, precisamos aprender a dominar esse sentimento. Reflita sobre momentos em que desejou ter controlado melhor a raiva.

"A raiva é um de nossos muitos mecanismos de proteção. Quando nos sentimos injustiçados, ela surge para nos colocar em uma posição de ação", analisa a a CEO e fundadora da Vittude, Tatiana Pimenta | Foto: Freepik

Já explodiu com pessoas próximas, magoando seus sentimentos? Já deu respostas grosseiras apenas para evitar interações sociais? Com que frequência você fica irritado? Foi difícil ter total controle sobre suas ações? É provável que sim. Quando estamos furiosos, não conseguimos pensar direito.

O lado nocivo da raiva excessiva 

A raiva é um de nossos muitos mecanismos de proteção. Quando nos sentimos injustiçados, ela surge para nos colocar em uma posição de ação. Em outras palavras, é uma resposta intensa a uma ameaça. Se acreditamos estar em perigo, o mais lógico a se fazer é procurar uma defesa, certo?

Na sociedade moderna, nos enraivecemos com as pessoas no trânsito, longas esperas em filas, frustrações no trabalho e até mesmo notícias nos meios de comunicação. Na maior parte do tempo, são situações as quais não podemos fazer nada para mudar. A sensação de impotência irrita até mais do que o ocorrido em si.

Apesar de ser e ter sido um sentimento útil para a evolução dos seres humanos, é melhor que o excesso de ira seja evitado.

Certamente, você e muitas pessoas colecionam ocasiões em que agiu ou disse algo que não queria. Palavras que magoaram alguém especial ou geraram consequências irreversíveis, como uma demissão. A raiva é a grande causadora de conflitos em nossas vidas. E o pior: é invasiva ao ponto de tomar conta de nós completamente. Além disso, pessoas que estão constantemente iradas são mais propensas a desenvolver doenças cardiovasculares, problemas gastrointestinais, dores de cabeça crônica e sofrer derrame. A descarga frenética de reações negativas eventualmente também prejudica a nossa saúde mental, permitindo o surgimento de transtornos psicológicos.


O lado bom da raiva controlada 
A raiva moderada pode nos mostrar o que está errado em nossas vidas. Ela pode nos encorajar a procurar soluções para problemas que nos perturbam uma vez que a motivação recém-adquirida é superior a insegurança e a vergonha. Ademais, temos mais consciência das injustiças ao nosso redor, gerando mudanças sociais de grande significância. Basta pensar nas grandes transformações no Brasil e no mundo que logo identificamos onde a raiva está localizada.

É evidente, portanto, que o sentimento também é benéfico para a nossa saúde. Desde criança, somos ensinados a contê-lo para não incomodar os demais ou não passar a impressão a errada. Afinal, ninguém gosta de conviver com uma pessoa conhecida por seus ataques de fúria. Por outro lado, o excesso de negatividade pode nos sobrecarregar e também ocasionar implicações catastróficas para o nosso físico e mental. Após a liberação das emoções ruins, além de ficarmos calmos, conseguimos seguir em frente para encarar os próximos desafios com a mente limpa.

A raiva também nos ajuda a descarregar a tensão acumulada já que nem sempre temos um momento de tranquilidade para nos reequilibrar emocionalmente do estresse do cotidiano. Entretanto, é preciso compreender a diferença entre liberar nossas frustrações em um acesso de fúria e manejar sentimentos (ressentimento, cólera, frustração) e comportamentos negativos (implicância, provocação, falta de paciência). Um é prejudicial não somente para nós, mas para todos a nossa volta. Já o outro, é uma forma de prevenir o primeiro.

Para melhorarmos a nossa qualidade vida, nossos relacionamentos interpessoais e desempenho no trabalho, devemos ter a inteligência emocional necessária para extravasar de modo saudável.

Métodos para administrar a raiva 
Embora você não deva ignorar este sentimento, o melhor a se fazer quando você está irritado é respirar fundo e procurar amenizar suas reações. Basicamente, lutar contra suas próprias atitudes raivosas até que estejam domadas. Como ficamos cegos quando permitimos a dominação da ira, perdemos o contato com a realidade e deixamos de raciocinar com clareza. Só percebemos o que causamos com nosso comportamento após “a poeira baixar”.

A habilidade de identificar respostas furiosas no momento em que essas surgem melhora com o tempo. Primeiro, você deve aceitar que também fica irritado. Há pessoas que não conseguem lidar com seus comportamentos enraivecidos simplesmente porque os abominam. Entenda: é possível reverter a situação, mesmo que esta seja desagradável.

Respire fundo 

Um conselho clichê, mas eficiente. As técnicas de relaxamento têm como foco a respiração por causa de sua capacidade tranquilizadora . Quando inspiramos e expiramos profundamente, segurando a respiração por alguns segundos antes de soltar, acalmamos o corpo e a mente.

O cérebro entende que não há perigo por perto, mandando um comando para os músculos relaxarem. O resultado é imediato. Assim, quando sentir a fúria borbulhando dentro de si, respire fundo repetidamente. Se necessário, feche os olhos por alguns segundos.

Apenas prossiga com seu dia quando sentir-se melhor. Você vai ver que será possível enfrentar qualquer situação dessa maneira. Durante o processo, não tenha medo de se livrar de seu orgulho. Muitas pessoas ficam apegadas a ele para não ceder ao outro. É mais importante, contudo, resolver os conflitos de forma saudável e manter laços de amizade construídos ao longo dos anos.

Encontre a causa 
Procure a origem do sentimento para que seja possível lidar com as situações. Por exemplo, às vezes, ficamos irritados com comportamentos alheios por conta de eventos passados. Arrastamos uma bagagem de experiências e deduções sobre as outras pessoas, principalmente, as que são próximas.
É uma das razões por trás de nossos acessos furiosos atrás do volante. Já vivemos a situação milhares de vezes e conhecemos o estresse , a surpresa e o medo causado pela imprudência alheia. Porém, devemos compreender que cada momento é um momento novo. Se esperarmos o mesmo sempre, além de nos zangarmos, também ficaremos frustrados.


Se afaste
Para se distanciar da situação desagradável, se afaste para um cômodo silencioso onde seja possível pensar sem interrupções. No calor do momento, podemos tomar decisões precipitadas. Então, procure um local para deixar a irritação sair de seu corpo. Se não conseguir se afastar fisicamente, guie seus pensamentos para outro cenário. Dessa forma, você conseguirá ver a situação atual sem o apego aos sentimentos.

Não se entregue 
Em vez de se permitir ficar irritado com tudo e todos, lembre-se que você é o responsável por suas reações. Ou seja, você pode escolher não se deixar levar pelo momento e focar sua atenção em outra coisa mais produtiva. Mesmo que sinta a vontade de gritar ou reagir fisicamente, como, por exemplo, socando uma parede, controle o impulso. Veja o lado positivo mesmo que seja difícil. Se não conseguir encontrar nenhum, siga a dica anterior.

Extravase emoções negativas 
Comumente, uma situação nos incomoda por um longo período antes de explodirmos. Tentamos coexistir com o problema até o limite de nossa paciência. Mas, quando sentir-se irritado, desabafe com alguém ou escreva em um diário ou transforme seus sentimentos em combustível para um hobby. O ideal, no entanto, seria ter uma conversa honesta sobre o que lhe incomoda. Há muito que se pode ser resolvido com o diálogo. Talvez, a pessoa envolvida não saiba como você se sente.
O melhor método para extravasar é, na verdade, administrar as emoções que a acompanham. Assim, você evitará uma explosão capaz de causar danos permanentes a sua vida.

Raiva no trabalho: o que fazer? 
É raro encontrar um ambiente profissional completamente saudável. Precisamos ter muito jogo de cintura para encarar os mais variados cenários. Com frequência, o cansaço das atividades e da interação constante com as pessoas afeta o nosso julgamento. Logo, nos envolvemos em brigas ou discussões indesejadas. Passamos a desejar causar intrigas com pessoas que não nos tratam bem apenas para nos vingarmos. Apesar da ideia soar reconfortante em nossas cabeças, esse caminho cria um ciclo de conflitos difícil de se extinguir.

Da mesma maneira que você pode ter medo de se expressar, seus colegas também podem sentir um desconforto. O silêncio prolongado acaba deixando passar situações desagradáveis que desestabilizam a equipe inteira. Quando um colega lhe tratar mal, encontre uma oportunidade para falar com ele. Expresse o seu descontentamento com calma, evitando pressioná-lo apenas para desafiá-lo, e ouça sem julgamentos . Esqueça o passado por um momento.

Demonstre que você também está comprometido a fazer mudanças para criar um ambiente de trabalho melhor para todos. Assim, você passará uma imagem positiva que, possivelmente, ele poderá se espelhar. O mesmo vale para um supervisor ou um chefe.

Lembre-se daquele ditado popular “não durma com raiva” para não colecionar eventos desagradáveis. É melhor resolver problemas de forma amigável e respeitosa para impedir que a situação saia do controle.

Aprenda a se conhecer 
Por fim, para aprender a gerir sentimentos e controlar melhor as emoções, nada melhor que o autoconhecimento. Investir em um processo de psicoterapia pode ser uma ferramenta poderosa para compreensão do seu modus operandi.

Um bom psicólogo pode ajudar você a olhar par si, descobrir quais são os gatilhos da raiva e como utilizar este sentimento ao seu favor. Se você tem ataques de fúria constantes, poderá entender se possui algum tipo de transtorno de humor ou de impulso. Vai conseguir se observar por um outro ângulo, mais neutro. Não tenha receio de experimentar o processo, ele é um verdadeiro convite para uma vida mais equilibrada e feliz!

*Tatiana Pimenta é CEO e fundadora da Vittude, plataforma que conecta psicólogos e pacientes. Faz psicoterapia pessoal há quase 7 anos, sendo apaixonada por psicologia e comportamento humano. Idealizadora do Consultório Virtual da Vittude, desenvolvido especialmente para atendimentos de saúde, de forma segura e sigilosa. 

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Neuropsicóloga fala sobre a raiva e como lidar com este sentimento

Da Redação

Em tempos de eleições presidenciais, a raiva, uma das seis emoções básicas de todos os seres humanos, vem afetando os relacionamentos sociais. Isso porque a raiva aumenta a intolerância com pontos de vistas diferentes. Segundo a neuropsicóloga Thaís Quaranta, sentir raiva é normal. Mas, quando a emoção é constante e fica fora de controle, é um sinal de alerta.

Raiva recorrente pode virar estresse crônico. Ajuda psicológica pode ser fundamental, para amenizar este tipo de sentimento | Foto: Freepik 
“No dia a dia podemos sentir raiva em diversos momentos, o que é natural. Uma bronca do chefe, uma briga com o namorado, uma fechada no trânsito. Entretanto, se a raiva é constante e passa de uma irritação para uma fúria intensa, é preciso cuidado. Isso porque uma raiva mais intensa pode levar a pessoa a se envolver em brigas e agressões físicas, por exemplo. Além disso, nessas discussões sobre política, pode até mesmo acabar com amizades ou afetar o relacionamento familiar, quando há pontos de vistas diferentes sobre o assunto”, cita Thaís.

Engolir a raiva também faz mal
Se por um lado ter explosões de raiva e partir para violência física não são atitudes adequadas, reprimir esse sentimento também pode fazer mal à saúde. Segundo a especialista, a raiva reprimida pode se transformar em vários outros sentimentos, como culpa, remorso, rejeição, frustração e até mesmo em doenças físicas e psiquiátricas. 

A explicação, segundo Thaís, é que a raiva desperta processos fisiológicos no corpo que precisam de uma resposta final. “Quando sentimos raiva, há uma série de efeitos fisiológicos, como aumento da frequência cardíaca, da pressão arterial e liberação de adrenalina e de noradrenalina, hormônios que dão energia e disposição. Em resumo, o corpo fica pronto para resolver a situação que gerou a raiva”.

Então, de acordo com a neuropsicóloga “engolir o sapo”, priva o corpo de voltar à sua normalidade, ou seja, de encerrar esses processos desencadeados pela raiva. Com o tempo, se isso for constante, é possível que essa pessoa desenvolva o estresse crônico.

E sabe-se que o estresse crônico pode levar ao enfraquecimento do sistema imunológico, aumenta o risco cardiovascular, assim como é um fator de risco bem conhecido da depressão e da ansiedade.

Como lidar com a raiva
Nem engolir sapos, nem soltar os cachorros. Segundo a neuropsicóloga, há maneiras mais construtivas de gerenciar a raiva. Veja abaixo algumas dicas:

1. Sentir raiva é normal: Se você aprendeu quando criança que só pessoas ruins sentem raiva ou que ela é negativa, livre-se já desta crença! Sentir raiva é normal, permita-se viver essa emoção, mas de uma maneira saudável.

2. Identifique a origem da raiva: A raiva nem sempre está ligada a fatores externos. De onde vem a sua raiva? Do que você sente raiva? Em que situações ela acontece com maior frequência?

3. Não faça nada com raiva: A raiva inibe o controle dos impulsos. Isso significa que no auge da sua irritação, você pode tomar atitudes que você não tomaria no seu estado normal. Isso não quer dizer que você deve reprimi-la. Procure se acalmar para então resolver a situação.

4. Fale sobre a raiva: Falar sempre é uma boa ideia. Quando você estiver mais calmo (a), converse com alguém e expresse o que você sentiu naquela situação, porque sentiu raiva e pense em alternativas para solucionar a questão. Uma dica: não espere semanas ou meses para fazer isso. Basta estar mais calmo e não no ápice da ira.

5. Você é humano (a): Trabalhar, cuidar dos filhos, da casa, das compras, dos familiares, estudar. Enfim, a rotina diária pode ser muito pesada para algumas pessoas e o estresse é o melhor amigo da raiva, quando não é bem gerenciado. Peça ajuda, divida as tarefas da casa e, principalmente, dedique um tempo do dia para cuidar de você ou para fazer algo que você gosta. Isso ajuda a diminuir o estresse e o risco de ter uma explosão de raiva.

6. Ache soluções: Você sente raiva de forma recorrente? Está sempre de mal com a vida? Tome uma atitude! A raiva não vai resolver seus problemas, pode até piorá-los. O que vai realmente ajudar é pensar em soluções, alternativas para as questões que fazem você sentir raiva.

7. Que tal um psicólogo? Você já tentou de tudo e nada resolveu? Procure um psicólogo. Principalmente se você se envolve em brigas físicas e se a raiva está comprometendo sua vida social, familiar e profissional.

A raiva é um sentimento, a agressão é um comportamento. Assim, é possível trabalhar a emoção para que a resposta à raiva seja diferente por meio da Terapia Cognitiva Comportamental (TCC).

“Trata-se de uma abordagem da psicologia que parte do princípio de que um pensamento gera um sentimento que gera uma ação. Assim, a TCC atua para modificar os padrões de pensamento que levam às emoções, modificando assim o comportamento”, encerra Thaís.



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