terça-feira, 11 de junho de 2019

O amor

*Por *Lúcia Moyses

Muito se tem falado de amor. Ele é o protagonista de músicas, filmes, livros e até de conversas de bar. Ele foi a razão da Guerra de Tróia, quando Paris se apaixonou por Helena e a raptou, enfurecendo Menelau. Os romances da Rainha Vitória e do Príncipe Albert, Anita e Giuseppe Garibaldi, Cleópatra e Marco Antônio, Henrique VIII e Ana Bolena, bem como tantas outros, nos mostram que o amor pode mudar a história do mundo.


Todos já vivenciaram o amor. Todos se acham profundos conhecedores deste sentimento tão essencial para a nossa existência. Todos dão sua opinião, de forma velada ou abertamente.

Mas o que é mesmo o amor?

Segundo o dicionário, é uma forte afeição por outra pessoa, nascida de laços de consanguinidade ou de relações sociais.

Mas não pode ser só isso. Afinal, um sentimento tão arrebatador que move o mundo, desde os primórdios não pode e não deveria ser encarcerado em definições tão simplistas.

Amor e paixão são a mesma coisa? De certo que não. A paixão é o fogo que consome a vela e um dia acaba, se extingue. Às vezes, um vento mais ousado apaga esse fogo de um só golpe e o que resta é só fumaça. Às vezes, no entanto, o fogo resiste a todas as ventanias e tempestades, mas nem por isso, dura eternamente. A paixão acaba. O amor, não.

A paixão pode se transformar em amor e dessa forma, perpetuar um relacionamento. Mas se não há amor, quando a paixão termina, nada mais resta aos protagonistas a não ser dar adeus e cada um seguir o seu caminho.

Os tipos de amor

Há o amor entre familiares, entre amigos, entre um homem e uma mulher ou até mesmo voltado à humanidade. Não há limites para o amor. Podemos amar quantas pessoas forem possíveis. Podemos amar tantas vezes quanto necessário. Podemos amar nossos pais, filhos, avós, sobrinhos, amigos, vizinhos, enfim, não há limites em nossa capacidade de amar.

Mas o que é mesmo o amor?

Engana-se quem acha que é amado, porque recebe declarações de amor.
Engana-se quem acha que é amado, porque recebe flores de presente.
Engana-se quem acha que é amado, porque o parceiro(a) morre de ciúmes.
Engana-se quem acha que é amado, porque o parceiro(a) é possessivo.
Engana-se quem acha que é amado, porque ambos fazem tudo junto.
E a lista poderia continuar eternamente.

Os enganos do amor

Cecília está extasiada. Rafael, seu namorado acabou de lhe fazer uma declaração de amor. Chegou em sua casa com uma caixa de bombons, um lindo cartão com os dizeres mais sublimes que já viu e ainda por cima, falou para todos que estavam por perto que ela, Cecília, era a mulher de sua vida.

O que Cecília não percebe é que quando estão juntos, Rafael sempre pega a melhor fatia do bolo, senta-se no melhor lugar à mesa, serve-se primeiro e termina com o restante do vinho. Ele sempre vem em primeiro lugar.

Otávio, desde que se casou, nunca mais jogou futebol. Sua esposa, Rita, não gosta que ele se ausente de casa para "curtir" com os amigos.

— Você agora é um homem casado. Seu lugar é junto da sua mulher.
Se Rita não pode ir a uma festa, Otávio também não vai.

— Você agora é um homem casado. Não pode sair sozinho, sem sua mulher.
Os dois são vistos sempre juntos. Onde um está, o outro também está. Onde um não está, tampouco está o outro.

Marta está se sentindo insegura. Acabou de ter uma conversa interessante com seu colega, mas seu noivo, Eduardo, aparentemente nem ligou.

— Se ele me amasse, sentiria ciúmes – conta, chateada, a uma amiga.

— Pois o Francisco me adora. Imagina se me pega conversando com outro homem... fica louco de ciúme. Eu só saio com um amigo se ele for junto – responde a amiga, toda orgulhosa.

Rogério adora sua família, mas Isa não a suporta. Assim, Rogério se afasta cada vez mais dos pais e dos irmãos, até ficar totalmente isolado com sua esposa.

— Agora nossa família somos nós e nossos filhos. Você precisa se desapegar dos outros.

Lucas grita com Amanda o tempo todo. Mas depois lhe escreve poemas de amor dizendo que a ama mais do que tudo no mundo. Amanda se esquece dos gritos e perdoa o seu amado, afinal, os poemas são realmente lindos.

Carol e Edgar acabaram de voltar para casa após o casamento de seu caçula. Agora estão sozinhos. O último filho se foi. Carol olha para a casa vazia e sente um aperto em seu peito. Olha para o marido e não sente absolutamente nada. Não conversam ou saem sozinhos há anos. Não têm mais nada em comum. Só lhes resta agora aguardar os netos.

Como é difícil amar

Amar não é possuir. Amar não é escravizar. Amar não é aprisionar. O amor não é egoísta. O amor não é inseguro. O amor não é galanteador.

Quando você ama, você não tira a liberdade do outro. Você não impõe sua vontade ao outro, você não exige a presença constante do outro. O amor é leve, é magnânimo, é original. Mas não é fácil.

Amar exige maturidade, segurança e confiança. Exige que você se coloque no lugar do outro e queria que ele seja tão feliz quanto você. Exige desprendimento, inteligência, tolerância, empatia. Não é fácil amar.

É muito mais fácil amar os amigos do que o companheiro. Com os amigos não somos possessivos, pois se formos, corremos o risco de perder aquela amizade. Com os amigos, somos tolerantes. Não exigimos a presença deles o tempo todo. Para os amigos, tomamos cuidados com nossas palavras venenosas e cruéis.

Já com o companheiro, achamos que temos o direito sobre sua vida. Agora ele nos pertence.
Ciúme não é e nunca foi prova de amor. Ciúme é prova de insegurança, de possessão. Mas não é nisso que a sociedade quer que você acredite.

— Ele deixa a esposa muito solta. Otário. Vai levar chifre rapidinho.

Como se a mulher só não traísse o homem porque não pode, porque está aprisionada.

— O Eduardo está conversando com aquela colega há um tempão e a Elisa nem se dá conta. Se fosse meu namorado, jamais lhe daria tanta liberdade.

Como se o homem vigiado não traísse na primeira oportunidade, caso quisesse.

O fato é que não nos achamos bons o suficiente. Não acreditamos que temos as qualidades necessárias para aquela pessoa nos amar. E se formos confiantes e seguros, a sociedade nos colocará em nosso devido lugar.

— Se ele não tem ciúmes de você, é porque não te ama.

— Se você não tomar conta, outro virá e tomará.

E as mensagens a respeito do falso amor são infinitas.

— Ele não te deu presente no dia dos namorados? Ih, não sei não...

— Ele se esqueceu do aniversário de casamento? Que mancada.

— Ela não te telefonou hoje o dia inteiro? O que será que está aprontando?

Essa é a forma de amar. Aprisione, siga as regras, tome conta, cuidado, você me pertence, e por aí afora.

A metade da laranja

Não existe a metade da laranja, a tampa da panela. Dois não se transformam em um. Em todo relacionamento haverá sempre duas pessoas, com histórias diferentes, personalidades distintas que tentarão viver juntas da melhor maneira possível.

O relacionamento ideal pede respeito, amizade, empatia, interesse pela vida do outro, criatividade e, sobretudo, muito amor.

Ambos terão que ceder em algum momento. Vaidades devem ser colocadas de lado pelo bem comum. Isso não significa que os parceiros se unirão a ponto de virarem um só. Sempre serão dois. Dois desejos, dois pensamentos, dois orgulhos, sempre dois.

Por isso é tão importante o respeito e a empatia. Colocar-se no lugar do outro é essencial para que o relacionamento dure da melhor forma possível.

Para ter respeito, é preciso abandonar ciúmes infantis e inseguranças frívolas. É preciso confiar em si mesmo e no parceiro. É preciso ter maturidade. E, sobretudo, amor.

E as brigas?

Brigas são necessárias. Crises são necessárias. A crise leva à evolução. Se não houver brigas ou discussões, a relação perde a elasticidade, fica estagnada. Mas mesmo nas brigas é preciso haver respeito. Nunca ultrapassar aquele limite em que depois não há mais volta. Brigas são saudáveis, sim. Porém, transformar o relacionamento em uma guerra só trará a derrota para ambos os lados.

Não é uma questão de ter razão ou de ganhar. É uma questão de crescer, evoluir como ser humano e como casal.

Não é fácil cultivar um bom relacionamento. É preciso estar atento o tempo inteiro. É preciso elogiar o parceiro, é preciso surpreendê-lo de vez em quando. É preciso dar espaço para o outro respirar. E, sobretudo, é preciso amá-lo como a si mesmo.

Ninguém disse que seria fácil, mas com certeza, é recompensador.

*Lúcia Moyses é psicóloga, neuropsicóloga e escritora. 

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